Raabe de Jericó: Uma Rápida Centelha da Graça

Por Francikley Vito 


A galeria dos heróis da fé (ver Hb 11) é formada primordialmente por homens; vidas que, por sua fé traduzida em obras, tornaram-se exemplo de piedade e fidelidade a Deus. Dentre as poucas mulheres que aparecem nessa “galeria” está Raabe, a prostituta de Jericó (verso 31). É acertado dizer que essa lista de heróis e heroínas não é composta por santos que nunca pecaram, mas por pecadores que pela graça divina alcançaram a vitória sobre os seus pecados; contudo, a presença de uma mulher prostituta nesta lista tende a causar certo desconforto e desconfiança. Tanto isso é verdade que muitos escritores têm argumentado que Raabe seria uma estalajadeira, alguém que hospedava pessoas em sua casa; mas as palavras nos originais hebraico (zôné) e grego (porne) a identificam “definitivamente” como uma prostituta profissional e não como a dona de uma pensão. A história de Raabe é contada primordialmente no capítulo dois do livro de Josué. Tendo algum conhecimento pessoal de Canaã devido a sua própria experiência de espia trinta e oito anos atrás, Josué, ao executar as ordens divinas, prudentemente enviou espiões a Jericó, a fortaleza-chave de todo o vale ao sul do Jordão. Para não serem pegos pelas autoridades da cidade, os enviados de Josué “entraram na casa de uma mulher prostituta, cujo nome era Raabe” e dormem ali (Js 2.1). Pela manhã os homens saíram e fizeram àquela mulher a promessa de que quando a cidade fosse conquistada, ela e aqueles que estivessem na casa com ela seriam poupados da morte (vv. 14,19). A prostituição, nos tempos bíblicos, era visto como um mal digno de desprezo e, no caso do povo de Deus, em situações específico, de morte (cf. Lv 21.19). A indagação então seria: Será que podemos aprender alguma coisa com alguém como Raabe, a prostituta?  Entendo que sim, uma vez que tudo que está escrito na Bíblia e para o nosso ensino e crescimento (Rm 15.4). São, pelo menos, três lições que aprendemos com Raabe:

I. Toda Grande Mudança é Precedida Por Pequenas Mudanças – Js 2.6. Ao receber os espias de Josué em sua casa, Raabe estava flagrantemente desobedecendo ao seu rei, pela fé no Rei dos reis. Por isso quando recebeu a ordem para tirar os homens de sua casa, ela fez com que eles (os espias) subissem “ao eirado, e os tinha escondido entre as canas do linho, que pusera em ordem sobre o eirado” (v. 6). A existência das canas de linho em seu telhado indica que Raabe “também se ocupava de trabalho honesto”. Como bem explica o Comentário Bíblico Moody (Josué, p.10):

As canas de linho eram os talos, de aproximadamente um metro de comprimento, espalhados em cima do telhado plano para secar (cons. Dt. 22: 8) depois de ficarem de molho na água por diversas semanas. O linho amadurecia nos começos de março, quando a cevada formava as espigas (Êx. 9:31, 32).

Apesar de trabalhar como prostituta, Raabe também se dedicava a arte de fiar e tingir linhos para sustento de sua casa; tanto isso é verdade que o sinal que ele deixaria para os espias quando esses voltassem para a tomada de Jericó era um “cordão vermelho” (v.18) que certamente era fruto do seu trabalho de tecelã. Pelo que indica o texto, Raabe já estava se dedicando a outro trabalho que não o de prostituição; ela buscava uma mudança em sua prática de vida, e Deus deu a ela essa oportunidade. Quando os espias entraram na casa daquela prostituta/tecelã eles estavam sendo enviados por Deus para mudar a história daquela mulher, pois o Senhor reconheceu nela alguém virtuosa (Pv 31.13). Quando fazemos pequenas mudanças, Deus se encarrega das grandes mudanças. Esse é o princípio: Ninguém consegue grandes mudanças se não fizer pequenas mudanças em sua vida.

II. A Fé Não é Resultado de Emoção, mas de Ouvir dos Feitos de Deus – Js 2.10. Não há como negar que Raabe colocou a sua vida em risco ao esconder em sua casa espias de outra nação que não a sua; ela, contudo, como disse o teólogo Paul Tillic, estava possuída por aquilo que nos toca incondicionalmente, a fé. Para ela, o que mais importava era honrar o Deus de que ouvira falar. Disse Raabe:

Bem sei que o Senhor vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desfalecidos diante de vós. Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Siom e a Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. O que ouvindo, desfaleceu o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos céus e em baixo na terra. (Josué 2.9-11)

A tecelã de Jericó ouviu falar do Deus dos espias e creu que Ele poderia fazer coisas em cima nos céus e em baixo na terra. Note, porém, que a crença que aquela mulher demonstrou não era uma crença teórica, mas uma certeza de fé que a impulsionava à ação. Uma fé que não nos mova a fidelidade a Deus, em detrimento dos nossos sentimentos, não é fé, é sentimentalismo vazio. Essa é a Razão pela qual o nome de Raabe aparece na galeria dos heróis da fé: Ela, por mais que fosse lógico fazê-lo, não temeu o seu rei, mas colocou a sua confiança em um Deus que não era o dela; e por isso “não pereceu com os incrédulos”

(Hb11.31). Raabe nos ensina que a fé deve ser acompanhada de obras (Tg 2.25), para não se tornar um retumbar constante de emoções infrutíferas e dilacerantes.

III. O Meu Futuro é Resultado do Meu Presente e Não do Meu Passado – Mt 1.5. O escritor Gene Getz, em seu livro Josué: um modelo de vida (p.59), diz que “a teologia de Raabe era simples, mas sua fé era grande. Ela não tinha muito conhecimento, mas o que sabia determinou sua ação”. Não há como negar que Raabe creu verdadeiramente em Deus. Sem pensar em como seria seu futuro depois da destruição de sua cidade natal, Raabe, uma prostituta, colocou-se inteiramente diante do Deus que abraçou como Senhor e Rei, e isso mudou completa e definitivamente o seu futuro. Depois de os espias terem cumprido a sua promessa (hb. hesed) para com Raabe e sua família, ela “habitou no meio de Israel” (Js 6.25). Mas a história não termina aqui. Depois de ter sido naturalizada, recebida com israelense, Raabe casa-se com Salmom e teve um filho cujo nome é Boaz que, por sua vez,  se casou com uma não israelita, Rute, que se tornou bisavó de Davi e, portanto, da descendência do Cristo (Mt 1.5). O teólogo Matthew Henry comenta o ato de Raabe assim:

Foi por fé que Raabe recebeu em paz a esses contra os quais estavam e guerra o rei e sua pátria. Estamos seguros de que esta foi uma boa obra; assim é qualificada pelo apóstolo (Tg 2.25); e ela o fez pela fé, fé que a colocou por acima do medo ao homem. São unicamente crentes verdadeiros aqueles que, em seus corações, acham o aventurar-se por Deus; eles tomam a Seu povo por povo deles, e correm a sorte com eles.

Não só o presente de Raabe foi garantido por Deus, em Sua lealdade em poupar a vida dela, mas também o seu futuro foi honrado quando ela entra em outra nobre galeria, a galeria de homens e mulheres que fazem parte da linhagem do Cristo. Honraria que não preço. Isso sem falar no cordão escarlate que torna-se, na história do cristianismo, um símbolo pascal. Não é só o nosso presente que é resguardado quando amamos a Deus, o nosso futuro é redirecionado quando resolvemos servi-Lo com todas as nossas forças, pensamentos e crença.

Em um mundo que resolveu, a todo custo, endeusar o humano, falar da “miserabilidade” de uma mulher é um gesto corajoso e necessário. Raabe entendeu que não é o rótulo que determina aquilo que seremos, mas aquilo que seremos é determinado por nossa essência e por nossa vontade. Aqui precisamos entender que da nossa indignidade brota nossa dignidade. A nossa dignidade, por sua vez, não está em quem somos como pessoa; mas em quê somos criaturas de Deus criadas à Sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Aprender com Raabe é um exercício de humildade e de submissão à Palavra de Deus que devemos desenvolver a cada dia. 

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